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Formigueiro

17 de set.
9 min de leitura

Renata De Bonis

17 de Setembro de 2026


Giorgio Morandi foi uma das primeiras grandes referências que tive na pintura. Lembro-me da sensação de permanência diante de suas pinturas, como se elas não exigissem de mim uma compreensão imediata, mas apenas que eu permanecesse com elas por algum tempo, contemplando sua composição, a luz, o silêncio entre os objetos, as pequenas diferenças entre uma garrafa e outra e aquilo que se transformava quase imperceptivelmente quando as mesmas garrafas, vasos e objetos voltavam a aparecer em outras pinturas e em diferentes combinações.


Havia algo na insistência do olhar, do olhar novamente, que me atraía profundamente, talvez porque eu reconhecesse ali uma maneira de estar no mundo que ainda não sabia nomear. Voltar ao mesmo lugar, às mesmas formas, às mesmas perguntas e descobrir que nada permanecia exatamente igual, embora alguma coisa continuasse.


No último ano da graduação, em 2005, fiz minha primeira viagem à Europa. Havia marcado no mapa (de papel!) lugares que queria visitar para ver obras de arte específicas ao vivo e circulei por algumas cidades de trem, com a mochila nas costas. Bologna estava no alto da lista: queria ver a luz de Morandi, conhecer a cidade onde ele havia vivido, seguir seus passos, olhar aquilo que ele havia visto tantas vezes nos livros, entender, de alguma maneira, o lugar de onde vinham aquelas pinturas que tinham se tornado tão importantes para mim. Eu estava tentando encontrar algo muito concreto, quase físico: uma luz, uma paisagem, uma atmosfera que pudesse me aproximar daquele pintor que eu admirava.

Fiquei encantada ao sentir o sol dourado de suas paisagens na minha pele. Pela primeira vez vi ciprestes. Em seu ateliê, vi seus vasos e garrafas cobertos de tinta: haviam virado pintura antes mesmo de irem para a tela. Ao caminhar pela cidade, me atentei à cor amarelada e opaca das casas, às quais agora me pareciam ser feitas de tinta, assim como os vasos e garrafas de seu ateliê.


Levei comigo um caderno e fiz algumas pinturas rápidas, pequenas tentativas de registrar o que via. Naquele momento, eu ainda não sabia muito bem o que significava ser artista, mas tinha a certeza de que queria continuar a pintar e a investigar o mundo daquela maneira.


2026

Vinte e um anos se passaram, e muitas viagens aconteceram nessas décadas. O deslocamento virou pulsão para meu trabalho como artista; morei em diferentes cidades, países (lugares que deixaram suas marcas em mim) e continuei a pintar e a pesquisar. Morandi ainda era uma grande referência, e monografias sobre sua obra estavam sempre à minha cabeceira. A viagem de 2005 havia me ensinado a importância de ver as obras de arte ao vivo e, principalmente, de visitar os lugares e contextos onde foram feitas. Goethe já havia dito: “Quem quer entender o poeta deve ir ao país do poeta.”


Em julho de 2026, voltei a Bologna pela primeira vez desde aquela viagem. Esta visita era um pouco diferente: estava visitando amigos e explorando a cidade com pessoas locais. No segundo dia, fomos em direção ao centro, escapando do intenso calor ao caminhar sob os arcos. Comprei alguns cartões-postais em uma banca de jornal e, em outra esquina, um ímã de geladeira em forma de tortellino. Acabamos entrando no Palazzo d’Accursio para ver as Collezioni Comunali d’Arte e a Torre dell’Orologio. Lá de cima, olhando para a Piazza Maggiore, reconheci alguma coisa antes mesmo de conseguir entender o que era. A praça, o domo, a arquitetura, os tijolos, a forma da cidade se organizando diante dos meus olhos; havia naquela vista uma familiaridade que não vinha da lembrança, ou pelo menos não vinha de uma lembrança que eu conseguisse alcançar imediatamente. Foi então que percebi que eu havia estado diante daquela exata janela em 2005.


Liguei para meus pais e enviei a foto da vista. Perguntei se por acaso eles lembravam de uma pintura dali. E eis que ali estava, desde aquela época, uma singela pintura emoldurada sobre a cama deles. Quando vi a imagem, reconheci Bologna de uma maneira diferente, como se a pintura tivesse guardado aquilo que a minha memória havia deixado escapar.




vista da Piazza Maggiore, 2026
vista da Piazza Maggiore, 2026


caderno de pinturas e anotações, 2005
caderno de pinturas e anotações, 2005

Durante todos aqueles anos, eu não havia pensado naquela vista, mas a pintura havia permanecido ali, silenciosamente, preservando alguma coisa que eu mesma já não sabia que tinha visto. Talvez seja isso que, às vezes, uma pintura possa fazer: não guardar apenas uma imagem, mas guardar uma relação, uma duração do olhar, uma parte da experiência que continua existindo mesmo quando a memória já não consegue alcançá-la. A pintura havia permanecido onde eu não havia conseguido permanecer.


Foi estranho perceber que, ao voltar para Bologna, eu não estava reencontrando apenas a cidade que havia procurado aos vinte e poucos anos, nem apenas Morandi, nem mesmo aquela pequena pintura esquecida sobre a cama dos meus pais. Eu estava reencontrando uma versão de mim mesma que tinha ido até ali sem saber ainda o que seria a própria vida. Em 2005, eu estava imaginando a vida como artista, fazendo pequenas pinturas e sonhando com as primeiras exposições, tentando entender se seria possível construir uma vida em torno delas. Voltar vinte e um anos depois me permitiu encontrar aquela pessoa que eu havia sido e, talvez, compreender que a cidade que eu procurava naquela época era, de certa maneira, também um lugar dentro de mim, uma parte de mim que havia sido transformada por uma cidade antes mesmo que eu soubesse que isso estava acontecendo.


Talvez por isso a volta tenha me emocionado tanto. Há lugares que permanecem em nós sem que saibamos exatamente onde, e há coisas que só conseguem voltar quando alguma circunstância as encontra novamente. A praça estava ali, a pintura estava ali, a cidade estava ali, e entre elas havia uma distância de vinte e um anos que, de repente, parecia não ser uma distância, mas uma espécie de espessura (como a poeira nas garrafas e vasos de Morandi, acumulando com o tempo), como se todo esse tempo tivesse ficado depositado entre uma coisa e outra. Pensei na maneira de Morandi de retornar aos mesmos objetos, não para repetir exatamente o que já havia visto, mas para continuar olhando, como se cada retorno pudesse revelar uma diferença que só aparece porque alguma coisa mudou entre um olhar e outro.


Talvez seja essa uma das coisas que mais me interessam em sua pintura: a permanência não como aquilo que fica imóvel, intacto, protegido pelo tempo, mas como aquilo que continua produzindo uma relação depois que alguma coisa já passou. Os objetos permanecem, mas também se transformam; a cidade permanece, mas o olhar que a encontra é outro; uma pintura permanece na parede durante vinte e um anos e, quando volta a ser vista, consegue devolver um lugar que havia desaparecido na memória. Para continuar, e não permanecer imóvel.


Certosa

Naquela mesma semana, decidi visitar a sepultura de Morandi no cemitério de Certosa. Aluguei uma bicicleta e fui até o cemitério às oito da manhã. Já fazia cerca de trinta graus quando cheguei, e levei algum tempo para encontrar o túmulo. Ao caminhar e tentar entender o mapa do cemitério (pelo Google Maps!), entre túmulos, gramados e árvores centenárias e suas sombras metafísicas, vi um senhor sentado sobre um andador. Sua careca refletia a luz do sol. Ele vestia uma calça azul e uma camisa amarela-clara. Ao observá-lo, ouvi-o conversando com uma sepultura, uma daquelas gavetas na parede. Não sei com quem ele falava, não sei o que dizia e não fiz esforço para entender. Fiquei apenas alguns instantes olhando aquela cena, pensando na intimidade estranha e muito concreta daquele gesto: continuar falando com alguém que já não pode responder, continuar levando uma relação até um lugar onde a resposta deixou de ser possível. Não havia nada de extraordinário naquela imagem, e talvez justamente por isso ela tenha me tocado tanto.



Entrada do Cemitério de Certosa
Entrada do Cemitério de Certosa
Basílica San Luca vista do cemitério
Basílica San Luca vista do cemitério

Quando finalmente encontrei a sepultura de Morandi, tive uma surpresa que me afetou fisicamente. Senti um arrepio e, ao mesmo tempo, uma onda de calor atravessando o corpo, uma alegria muito simples por estar ali. O túmulo era austero: seu nome gravado na pedra, seu busto, árvores e arbustos ao redor. Fiquei algum tempo diante dele, tentando conciliar aquela presença concreta com a figura que havia acompanhado meu olhar durante tantos anos. Era estranho pensar que aquele homem que eu conhecia através de suas pinturas, de suas paisagens, de suas naturezas-mortas, estava ali, naquele lugar específico, enquanto ao redor continuava acontecendo tudo aquilo que acontece em um cemitério: pessoas chegando, pessoas cuidando das sepulturas, folhas caindo, plantas crescendo.





Sentei-me ao lado da sepultura em busca de um pouco de sombra. Olhei para o chão e vi formigas. Muitas. Uma fila quase infinita passava por entre meus pés, uma depois da outra, mantendo seu ritmo, seguindo alguma coisa que eu não podia ver, respondendo a uma espécie de chamado que fazia com que continuassem. Fiquei olhando para elas e pensando novamente em Morandi, na quantidade de vezes em que ele voltou às mesmas formas, aos mesmos objetos, às mesmas relações e em como seu trabalho atravessou anos de guerra, deslocamentos e transformações sem abandonar a necessidade de continuar olhando, desenhando, pintando. Havia algo naquela pequena procissão de formigas que me fazia pensar no olhar e no fazer artístico não como uma decisão extraordinária, mas como uma coisa que simplesmente precisa continuar sendo feita, uma espécie de ritmo ao qual se responde.

Também havia, espalhados pelo cemitério, pontos de água e regadores para cuidar das plantas. Achei bonito e estranho perceber que, em um lugar destinado aos mortos, havia uma estrutura tão simples e necessária para cuidar daquilo que continua vivo: alguém precisa encher um regador, alguém precisa molhar uma árvore, alguém precisa cuidar de uma planta para que ela continue crescendo. A morte não interrompia a necessidade de cuidar da vida. As duas coisas estavam ali, no mesmo espaço, sem que uma anulasse a outra.



regadores no cemitério de Certosa
regadores no cemitério de Certosa


Pensei novamente nas flores de Morandi. Ele pintou flores durante grande parte de sua vida e, em muitas ocasiões, essas pinturas foram oferecidas como presentes a pessoas próximas, amigos, familiares e pessoas por quem tinha estima. Há algo que me toca especialmente nisso: uma pintura de flores, que poderia parecer tão silenciosa e tão contida, podia ser também uma forma de oferecer um agrado a outra pessoa, assim como fazemos com um buquê.


Há uma coincidência que descobri e que, por algum motivo, ficou comigo. Uma pintura, Fiori, de 1924, entrou nas coleções da cidade de Bologna em 1984, doada pelas irmãs de Morandi ao Município. 1984 é também o ano em que eu nasci. Apenas uma coincidência, mas gosto de perceber como as coisas se encostam e esbarram no tempo sem que tenham sido planejadas para isso. Uma pintura de flores feita décadas antes de eu nascer passou a pertencer à cidade justamente no ano em que eu começava a existir e, tantos anos depois, eu voltava a essa mesma cidade procurando o trabalho de seu autor, e redescobrindo uma pequena pintura que eu mesma havia feito ali.



Giorgio Morandi, Fiori, 1924, oleo sobre tela, 58 x 48 cm, Istituzione Bologna Musei, Museo Morandi
Giorgio Morandi, Fiori, 1924, oleo sobre tela, 58 x 48 cm, Istituzione Bologna Musei, Museo Morandi

No dia em que visitei o túmulo, deixei pequenas flores sobre a pedra. Um gesto muito simples, mas, depois de saber que Morandi tantas vezes ofereceu suas pinturas de flores como presentes, senti que havia alguma continuidade possível naquele gesto, embora eu não saiba dizer exatamente qual. Ao voltar ao ateliê, pintei essa cena como uma singela homenagem a ele. Uma pintura pode atravessar décadas, mudar de casa, entrar em uma coleção, permanecer em uma parede, voltar a ser vista por alguém; uma flor verdadeira pode ser colhida pela manhã e, poucas horas depois, estar sobre uma sepultura. Entre uma coisa e outra existe uma diferença enorme, mas existe também alguma forma de relação com o tempo, com aquilo que nasce, que se transforma, que desaparece e que, de alguma maneira, continua.


pequenas flores para Morandi
pequenas flores para Morandi


Talvez seja isso que eu tenha ido procurar em Bologna sem saber. Em 2005, eu achava que estava procurando a luz de Morandi, o lugar que seus olhos haviam visto, uma cidade que pudesse me aproximar de uma pintura. Em 2026, percebi que aquela cidade já fazia parte de mim de uma maneira que eu não conseguia medir e que voltar a ela significava também voltar à pessoa que eu havia sido quando ainda estava tentando descobrir se a pintura poderia ser uma vida. A pequena pintura que permaneceu sobre a cama de meus pais durante vinte e um anos me devolveu uma praça; a praça me devolveu uma cidade; a cidade me devolveu uma parte de mim mesma que eu havia deixado para trás sem perceber.


Talvez por isso eu pense tanto na palavra permanência. Não como uma resistência ao tempo, nem como uma tentativa de manter as coisas intactas, mas como aquilo que continua se transformando em relação com aquilo que passou. Morandi retorna aos mesmos objetos, eu retorno a uma cidade, uma pintura retorna à minha memória, um homem conversa diante de uma sepultura, as formigas continuam seu percurso, alguém rega uma planta dentro de um cemitério, uma flor atravessa o tempo em uma pintura e outra flor, desta vez verdadeira, repousa por algumas horas sobre uma pedra. Nada disso permanece da mesma maneira, mas alguma coisa continua.


E talvez a pintura tenha a ver justamente com isso: com uma forma de continuar olhando depois que o instante já passou, de permanecer em relação com aquilo que muda, de voltar ao mesmo lugar sem esperar encontrar exatamente a mesma coisa. Quando penso agora naquela viagem de 2005, na jovem que chegou a Bologna de mochila, no caderno onde fiz algumas pinturas rápidas, na vontade de me tornar artista, sinto que aquela cidade não ficou para trás como uma lembrança encerrada. Ela continuou acontecendo em algum lugar, talvez dentro de mim, talvez naquela pintura esquecida, talvez na própria vontade de voltar.


E agora, depois de ter voltado, tenho a sensação de que algumas coisas não precisam ser resolvidas para permanecerem conosco. Talvez baste continuar a olhar. E olhar de novo. E de novo. Talvez.



Folhas de árvores e arbustos coletadas em torno do túmulo de Morandi.
Folhas de árvores e arbustos coletadas em torno do túmulo de Morandi.


 
 
 

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