Sono Leve

farm

São Paulo - BR

24 de Abril –  05 de Junho 2021


 

A prática de Renata De Bonis está ligada a retiros em lugares isolados, em paisagens que poderiam evocar o sublime, mas também em ambientes conhecidos. Nesse sentido, estar em imersão em espaços mais ou menos delimitados é parte de sua trajetória e não diz apenas dos acontecimentos recentes. A pintura, que fez parte de seu vocabulário inicial, foi retomada após trabalhar com materiais que vinham diretamente dessas paisagens naturais e culturais.


Em suas pinturas recentes, produzidas na zona rural paulista, a artista apresenta uma pluralidade de motivos, com generosa atenção aos detalhes da vida cotidiana: folhas no chão; uma flor; ou a cena onde o retrato é substituído pela imagem da capa do livro de Tennessee Williams, que protege o rosto da luz vertical do sol.

Simultaneamente à exposição no auroras, Renata De Bonis mostra um grupo de pequenas obras no estábulo do sítio, onde foram produzidas. O conjunto de pinturas que se encontram nesse espaço são variações de cenas lunares, assinalando o interesse recorrente da artista pela luz e seus efeitos. Próximo ao estábulo encontra-se ainda um orquidário abandonado onde se pode escutar uma instalação sonora, composta por gravações de campo – que desenham uma paisagem sonora do sítio – mixadas a uma camada instrumental de piano e violão e a repetição mântrica da frase “sono leve” que dá nome à exposição. Esse mesmo trabalho é reproduzido na biblioteca do auroras.

Esse “Sono Leve” não foi contaminado pelo pesadelo, pelo contrário, reflete um bem-estar luminoso; o olhar continua focando em enquadramentos de cenas familiares que o ambiente proporciona e pode se demorar neles, tem tempo.

 

Renata De Bonis' practice is connected to retreats in isolated places, in landscapes that could evoke the sublime, but also in ordinary environments. In this sense, being immersed in more or less delimited spaces is part of her trajectory and does not just refer to recent events. Painting is revisited now, after a period in which she had been working with materials that came directly from these natural and cultural landscapes.

In her recent paintings, produced in the countryside of São Paulo, the artist presents a plurality of motifs with generous attention to the details of everyday life: leaves on the floor; a flower; or the scene where a portrait is replaced by the cover image of Tennessee Williams' book, which shields the face from vertical sunlight.

Simultaneously with the exhibition at auroras, Renata De Bonis shows a group of small works in the stable of a farm, where they were produced. The set of paintings found in this space are variations of lunar scenes, pointing out to the artist's recurrent interest in light and its effects. Next to the stable there is also an abandoned orchid greenhouse where one can listen to an audio installation composed of field recordings - that draw a soundscape of the farm - mixed with an instrumental layer of piano and guitar and the mantra repetition of the phrase “sono leve” (light sleep), which gives the title of the exhibition. This same work is reproduced in the auroras’ library.

This “Light Sleep” was not contaminated by any nightmare, on the contrary, it reflects a luminous wellbeing; the gaze continues to focus on frames of familiar scenes offered by the environment and can linger on them, there is time.

 

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ECDISE, ou sobre quando abre

Guilherme Teixeira

Beware: whoever pretends to be a ghost will eventually turn into one.

George Caillois in. Mimicry and Legendary Psychastenia

Uma mão toca o vidro um vidro uma mão toca um vidro o vidro; um som que era eu ontem vibra todos os galhos me vibra - eu era um galho que engolira outro. Algo se quebra, se desfaz de mim, e líquido me desfaço exúvia; líquido sou outro e sou mil ou sou tudo. Algo se faz motivo de movimento, apêndices se deslocam e se perdem, eu me perco ao nascer há pouco. Uma mão toca o vidro um vidro uma mão toca um vidro o vidro reverbera e gesto e silêncio me impelem a mover: sou gesto, sou silêncio, sou enfim. Nunca me disseram, mas há um entomólogo francês que postula a necessidade de um inseto inofensivo tomar a aparência de um proibido, e cita as Trochillium e Vespas Crabros e suas mesmas constituições fisiológicas que nascem da linha tênue entre a violência e a proteção. Olho para trás - ou seja, para mim, e uma mão toca o vidro um vidro uma mão toca um vidro o vidro reverbera o gesto: aquilo é barulho, é silêncio, é contato? Olho para trás - ou seja, para mim, e vejo folhagem, vontade de vida, falseio de fartura, vontade de tudo; Olho para trás - ou seja, para mim, e não sei onde folhagem, vontade de vida, falseio de fartura, vontade de tudo acaba, e eu começo… Dei dois passos e não sei mais onde começo e uma mão toca o vidro um vidro uma mão toca um vidro o vidro e som treme as hastes não sei se do que me rodeia ou das minhas irmãs: Olho para trás - ou seja, para mim, e assumo ou finjo entender que me fiz Vespa Crabro.


Nada satisfaz esse fenômeno e eu olho pra trás - ou seja, para mim, e percebo que não acabo e sou tudo que foi troca atlântica e verbos do tudo que olha para trás - ou seja, para elas, e não sabem onde terminam ou onde começam.


Olho para trás - ou seja, para mim, e uma mão toca o vidro um vidro uma mão toca um vidro: o vidro é; Olho para trás - ou seja, para mim, e feita vidro aceito e assumo que sou o que me esqueci - cheia de vontade de ser vidro, fui vazão -, e uma irmã se aproxima: me aquieto, não ouso dirigir-lhe palavra e ela, que olha para trás - ou seja, para si - retorna seu olho pra frente e me faz motivo de digestão: metade de mim some em sua boca, olho para trás - ou seja, para o que era eu, e não há mais coordenada… É sobre o se poder espaço? E uma mão toca o vidro um vidro uma mão toca um vidro o vidro e em breve, a partir da nomenclatura e semântica dos homens que se construíram no século xvii, o nome que habita a boca de minha irmã assim como o meu será motivo daquilo que sobra entre um plano e outro: tudo dado o fato de que, na vontade de ser tudo e continuar sendo, acabamos por engolir umas às outras e uma mão toca o vidro um vidro uma mão toca um vidro e agora é vez de minha irmã ser enunciado.


- Uma mão toca o vidro um vidro uma mão toca um vidro o vidro; um som que era eu ontem vibra todos os galhos me vibra - eu era um galho que engolira outro. Algo se quebra.

ECDISE, ou sobre quando abre

Guilherme Teixeira

Cuidado: quem paga de fantasma, vira um.

George Caillois in. Mimicry and Legendary Psychastenia

 

A hand touches the glass a glass a hand touches a glass the glass; a sound that was me yesterday vibrates all the branches vibrate me - I was once a branch that swallowed another. Something breaks, undoes itself from myself, and liquid I dissolve exuviae; liquid, I am the other and a thousand or am I all things. Something becomes a motive for motion, appendixes shift and lose themselves, I lose myself while just being born. A hand touches the glass a glass a hand touches a glass the glass reverberates, and gesture and silence impel me to move: I am gesture, I am silence, I am at last. No one ever told me, but there is a French entomologist who postulates the necessity for a harmless insect to take on the appearance of a forbidden one, and cites the Trochillium and Crab Wasps and their very same physiological constitutions that are born from the fine line between violence and protection. I look back - that is, at myself, and a hand touches the glass a glass a hand touches a glass the glass reverberates the gesture: is that noise, is that silence, is that contact? I look back - that is, at myself, and I see foliage, will to live, a false sense of abundance, the desire for everything; I look back - that is, at myself, and I don't know where foliage, will to live, a false sense of abundance, and the desire for everything, ends, and I begin… I took two steps and I don’t know anymore where I begin and a hand touches the glass a glass a hand touches a glass the glass and sound trembles the stems of, I don’t know what, that surrounds me or my sisters. I look back - that is, at myself, and assume or pretend to understand that I have made myself  into a Crab Wasp. 

Nothing satisfies this phenomenom and I look back - that is, at myself, and realize that I am not done and I am all that was Atlantic exchange and verbs of the everything that looks back - that is, at them, and don't know where they end or where they begin.

I look back - that is, at myself, and a hand touches the glass a glass a hand touches a glass : the glass is; I look back - that is, at myself, and made glass I accept and assume that I am what I have forgotten - full of will to be glass, I’ve been outflowed -, and a sister approaches: I become quiet, I dare not speak a word to her, and she, who looks back - that is, to herself - returns her eye to the front and gives me cause for digestion: half of myself disappears in her mouth, I look back - that is, to what was, and there are no longer coordinates... Is it about the allowance to be space? And a hand touches the glass a glass a hand touches a glass the glass and soon, from the nomenclature and semantics of the men who built themselves in the xvii century, the name that inhabits my sister's mouth, as well as mine, will be the reason for what is left between one surface and another: all given the fact that, in the will to be everything and continue to be, we end up swallowing each other and a hand touches the glass a glass a hand touches a glass and now it is my sister's turn to be enunciated.

 

-  A hand touches the glass a glass a hand touches a glass the glass; a sound that was me yesterday vibrates all the branches vibrate me – I was once a branch that swallowed another. Something breaks.