Anotações a partir de Caspar David Friedrich

2015-

 

Este é um projeto em andamento onde as pinturas emblemáticas do artista alemão romântico Caspar David Friedrich são revisadas in loco e recapturadas através de gravações de som profissionais.

 

Por meio de uma investigação intensiva, os locais e paisagens específicas pintados por Friedrich no século XIX foram mapeados, localizados e visitados para gravar seus respectivos sons em seus contextos atuais com um equipamento profissional de gravação de som. O projeto propõe uma reflexão contemplativa sobre a natureza através do som e da presença ao invés de através de uma relação baseada por imagens, tão saturada nos dias de hoje.

 

É simultaneamente uma celebração do artista, bem como uma crítica ao estilo de vida contemporâneo e sua relação com a natureza e o mundo físico mediada por imagens... uma transposição de uma crítica da modernidade no contexto de Friedrich, a uma crítica do nosso mundo contemporâneo e da sua união entre a humanidade e a natureza. Finalmente, o trabalho, como se evocasse o descontentamento de Caspar em relação as crescentes mudanças industriais e suas conseqüências, critica a mercantilização da modernidade através de produtos baseados em imagens e relações sociais.

As seguintes imagens retratam o momento em que eu estava a capturar os sons de alguns dos lugares visitados, e estão aqui apenas para fins ilustrativos. Nenhuma imagem do status atual das paisagens eternizadas por Friedrich é exibida na ocasião de exposições onde eu tive a chance de mostrar e compartilhar esse trabalho. Em tais oportunidades, exibo o trabalho por meio de sistemas e equipamentos de som profissionais, bem como uma coleção de alguns fragmentos físicos coletados nas próprias paisagens.

Dos vários lugares que consegui rastrear, alguns dos mais emblemáticos são a pintura icônica “Monk by the sea”, de 1809, pintada em uma costa na Ilha de Rügen e “Chalk Cliffs in Rügen”, pintada no mesmo local. Até o presente momento, um total de oito paisagens foram visitadas e registradas.

Mais recentemente, fragmentos do projeto Anotações a partir de Caspar David Friedrich foram exibidos em algumas mostras de grandes grupos institucionais, como a exposição FUTURUINS no Palazzo Fortuny em Veneza, Itália, na qual a obra foi exibida em conjunto com a pintura original de Friedrich intitulada The Dreamer, emprestado pela coleção do Museu Hermitage de São Petersburgo, Rússia. Parte do projeto também foi exibida na coletiva Festival Arte Atual, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, Brasil.

Sounds after Caspar David Friedrich

2015-

This is an ongoing project where the emblematic paintings by the romantic German artist are revisited in-loco and recaptured through professional sound recordings.

By means of an intensive investigation, the specific sites and landscapes painted by Friedrich in the 19th century were mapped, located, and visited in order to record their respective sounds within their present contexts with professional sound recording equipment. The project proposes a contemplative reflection upon nature through sound and presence instead of through a, nowadays, saturated image-based relation.

 

It is simultaneously a celebration of the artist, as well as a critique of a contemporary lifestyle and its image-mediated relationship with nature and the physical world... a transposition of a critique of modernity in the context of Friedrich, to a critique of our contemporary world and its collapsing unity between humanity and nature. Finally, the work, as if evoking Caspar’s discontent towards the industrial revolution and its consequences, critiques over the commodification of modernity through image-based products and social relations.

 

The following images of myself capturing the sounds of some of the sites are here only for illustrative purposes. No images of the present-day status of the famous landscapes are shown on the occasion of exhibitions where I had a chance to show and share this work. In such opportunities, I display the work by means of professional sound systems and equipment, as well as a collection of a few physical fragments collected in the landscapes themselves.

 

From the several places, I was able to track down, some of the most emblematic is the iconic painting ‘Monk by the sea’, of 1809, painted at a coast in Rügen Island and “Chalk Cliffs in Rügen”, painted in the same location. As of this moment, a total of eight landscapes have been visited and recorded.

More recently fragments of the project Sounds after Caspar David Friedrich were exhibited in a few major institutional groups shows, such as the exhibition FUTURUINS (2018) at Palazzo Fortuny in Venice, Italy, in which the work was exhibited in conjunction to the original painting by Friedrich titled The Dreamer, on loan by the collection of the Hermitage Museum in St. Petersburg, Russia. An installment of the project was also exhibited in the show Festival Arte Atual (2016)  at Instituto Tomie Ohtake in São Paulo, Brazil.

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Caspar_David_Friedrich_-_Der_Greifswalde
gravação em Eldena 3.JPG
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Caspar_David_Friedrich_-_A_Walk_at_Dusk.
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Caspar_David_Friedrich_-_Der_Mönch_am_M
gravação na vista de Greifswald.JPG
greifswald view, Caspar david Friedrich.
porto de Wieck 2.JPG
Caspar_David_Friedrich_038.jpg
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Caspar_David_Friedrich's_Chalk_Cliffs_on
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Caspar_David_Friedrich_-_Huttens_Grab.jp
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vista da exposição tomie1.jpg

Arte Atual Festival

Instituto Tomie Ohtake

São Paulo - BR

2016

Anotações a partir de Caspar David Friedrich | Sounds after Caspar David Friedrich

Arte Atual Festival

Olivia Ardui

Luz, Câmera, Ação?

Reflexões sobre o Arte Atual Festival

Olivia Ardui

 

A segunda edição do Arte Atual Festival, com o título Quadro, Desquadro, Requadro, teve como ponto de partida uma reflexão sobre as modalidades de construção do espaço e dos limites da representação. Uma proposição  ousada e ambiciosa para um ciclo de mostras que se define como uma proposta mais experimental e com um compromisso menos rígido com pressupostos teóricos, visto a ambiguidade e complexidade do termo amplamente utilizado no discurso e teoria das artes.

Para citar um exemplo eminente entre muitos, Ernst Gombrich parte da definição de representação entendida como uma maneira de "invocar mediante descrição ou retrato ou imaginação, figurar, simular na mente ou pelos sentidos, servir de ou ser tido por aparência de, estar para, ser espécime de, ocupar o lugar de, ser substituto de"[1]. Essa imagem ou apresentação cênica torna visível e, portanto, presente, uma realidade, uma pessoa ou até mesmo uma ideia, que não estaria de fato diante dos nossos olhos. Mas essa presentificação não replica a coisa representada à maneira de um espelho, ela implica um processo de abstração, atribuição de significados a símbolos reconhecíveis, social e historicamente construídos com o intuito de serem lidos e apreendidos pelos espectadores.

Se considerarmos literalmente essa definição, a saber, na sua acepção de presentificação de uma ausência, de revelar algo que normalmente não se daria a ver, por um lado, mas também o caráter construído e convencional dessa aparência, a ideia de representação ecoa fortemente com os trabalhos presentes na exposição. De fato, as obras apresentadas parecem compartilhar uma vontade deevidenciar ou tornar mais palpáveis estruturas e dispositivos para a constituição de personagens e ficções, para a elaboração de uma ambientação ou a composição da imagem ou, de maneira mais indireta, descortinar memórias e histórias veladas sobre uma pessoa ou lugar.

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Em Anotações a partir de Caspar David Friedrich, Renata De Bonis também lida com a estetização de uma experiência no âmbito da pintura em contraposição à realidade concreta. A artista pesquisa as paisagens sublimes consagradas por esse pintor romântico alemão da primeira metade do século XIX. Conhecido por suas pinturas em que figuras se perdem em meio a horizontes grandiosos e ruínas medievais monumentais, a obra de Friedrich é representativa do mal-do-século, um sentimento de melancolia diante da futilidade da existência, grandeza da natureza e do passado. Durante uma residência que realizou na Alemanha, a artista mapeou, localizou e visitou diversos dos cenários em que ele tinha realizado as suas pinturas afim de se deparar com essas paisagens e todo o imaginário que foi construído em torno delas.

Renata De Bonis capturou, então, a sonoridade desses ambientes, justamente a sua dimensão mais impalpável e evanescente. O som gravado foi editado em faixas que correspondem às locações específicas das obras de Friedrich. Caixas de som espalhadas pelo espaço reproduziam uma faixa por vez, atualizando, com cerca de um século e meio de distância, a ambiência acústica daquele lugar. A vista de um mar aparentemente tranquilo e sereno, assim como a composição sóbria de Der Mönch am Meer [Monge Diante do Mar], por exemplo, contrastam com a veemência e violência do som das ondas que quebram. Esses contrastes apontam mais uma vez para o caráter convencional da representação, que implica a composição e reagenciamento de elementos num campo imagético ou cênico.

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sounds after caspar friedrich tomie.jpg

Futuruins

Palazzo Fortuny

Veneza, IT

2018

Futuruins

The exhibition reflects on the theme of ruins: an allegory for the inexorable passage of time, always uncertain and changeable, disputed between past and future, life and death, destruction and creation, Nature and Culture. The aesthetics of ruins is a crucial element in the history of Western civilization. The ruin as a concept symbolizes the presence of the past but at the same time contains within itself the potential of the fragment: a fragment that comes from antiquity, covered by the patina of time, which with its cultural and symbolic implications also becomes a valid “foundation stone” for building the future. It comes from the past, confers a wealth of meaning on the present, and offers awareness to future projects. The contemporary itinerary opens with the extraordinary environmental installation by Anne and Patrick Poirier, and is followed by other works by Acconci Studio, Olivio Barbieri, Botto & Bruno, Alberto Burri, Sara Campesan, Ludovica Carbotta, Ugo Carmeni, Lawrence Carroll, Giulia Cenci, Giacomo Costa, Roberto Crippa, Lynn Davis, Giorgio de Chirico, Federico de Leonardis, Marco Del Re, Paola De Pietri, Jean Dubuffet, Tomas Ewald, Cleo Fariselli, Kay Fingerle, Maria Friberg, Luigi Ghirri, Gioberto Noro, John Gossage, Thomas Hirschhorn, Anselm Kiefer, Francesco Jodice, Wolfgang Laib, Hiroyuki Masuyama, Jonatah Manno, Mirco Marchelli, Steve McCurry, Ennio Morlotti, Sarah Moon, Margherita Muriti, Claudio Parmiggiani, Lorenzo Passi, Fabrizio Prevedello, Dmitri Prigov, Judit Reigl, Christian Retschlag, David Rickard, Mimmo Rotella, Anri Sala, Alberto Savinio and Elisa Sighicelli. In line with the tradition of exhibitions at the Fortuny, there are also a series of works specifically made for “Futuruins” that offer new stimuli for reflection on the present: in this case, these works are by Franco Guerzoni, Christian Fogarolli, Giuseppe Amato, Renato Leotta and Renata De Bonis.

The latter, with Sounds after Caspar David Friedrich: The Dreamer wanted to capture today's sounds of the place immortalized by the great German artist in the famous painting of The Dreamer, one of the masterpieces that came from Ermitage for this exhibition and a true icon of the nineteenth-century taste for ruins.

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